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quarta-feira, outubro 04, 2006

Meu sentido




Cheiro de flor, de perfume, de chuva, de infância, de bebê,de bolo de fubá, de banho,dos meus filhos, do mar, de paixão, de tempero de mãe, de detalhe, de mato, de censura, de café, do amanhacer, de chocolate , de cera no chão, de roupa lavada, de fruta, do teu corpo desejando o meu.
Cheiros ...





O Cheiro de Deus


Roberto Drummond



É de bom aviso prevenir que Vó Inácia Micaéla, uma mulher cega na vizinhança dos 65 anos, com um rifle a tiracolo com o qual conversa como se fosse gente, espera o ataque dos jagunços chefiados pelo Coronel Bim Bim, que prometeu levar sua cabeça para pendurar na parede do sobrado de 28 janelas em Cruz dos Homens. Toda manhã, com o dedo no gatilho do rifle, Vó Inácia exercitava a pontaria, enquanto apurava o olfato de cega para sentir o cheiro de Deus antes da chegada do Coronel Bim Bim. Nos primeiros tempos como cega, Vó Inácia não sabia quando era dia, nem quando era noite, mas descobriu que o dia tinha um cheiro próprio, diferente da noite, e o cheiro da noite era diferente do cheiro de orvalho do dia nascendo, assim como o sábado à noite em Belo Horizonte cheirava ao suor dos amantes.
-Responde, rifle velho de guerra - perguntava Vó Inácia -, e se o cheiro do suor dos amantes for o cheiro de Deus?Vó Inácia acabou por descobrir que a felicidade cheirava, que o amor tinha um cheiro tão parecido com o cheiro do ódio a ponto de pensar que a neta Catula estava amando quando na verdade podia ser o Coronel Bim Bim chegando para cumprir a ameaça de levar sua cabeça para pendurar na parede do sobrado de 28 janelas em Cruz dos Homens. De tanto que apurou o olfato de cega, Vó Inácia sentia no ar o cheiro da chuva que só ia cair daí a dois dias.
-Agora que sou uma cega - dizia Vó Inácia ao rifle a tiracolo -, eu sei: devia ter prestado mais atenção na chuva. Viver é simples, a gente é que complica. Olhar a chuva cair é viver e eu não sabia. Molhar na chuva é viver e eu não sabia. Andar descalça na chuva também é viver. Tive que ficar cega para saber.
Acariciava o rifle a tiracolo e continuava a conversar com ele:
-Eu sempre fui com muita sede ao pote, irmão rifle. A vida tem que ser bebida devagarinho, gole a gole, hoje eu sei que a vida tem que ser degustada como um bom vinho e não é feita apenas da guerra e dos grandes amores. A vida é feita da paz e dos pequenos amores. Ah, o que eu não daria para ver a chuva caindo. Eu sinto o cheiro da chuva, mas não é a mesma coisa.
Vó Inácia respirava fundo, como a sentir o cheiro de Deus e dizia:
-Se eu fosse viver tudo de novo, irmão rifle, com o que aprendi como cega, podendo enxergar como antes, eu ia prestar muita atenção nas pessoas. Ia saber cada coisa delas, não apenas a cor dos olhos e como é o nariz e o cabelo e os jeitos e trejeitos. Ia saber como minha neta Catula masca a ponta do cabelo fulvo fazendo um barulho com os dentes como o bicho-da-seda comendo uma folha de amora. Catula faz assim desde menina, mas eu não a observei como devia assim como não observei a chuva em Cruz dos Homens. Ah, rifle velho de guerra, eu não tive tempo para observar as pessoas. Mas hoje eu sei: meu maior pecado foi não ter observado como devia meu tio e marido Old Parr Drummond...


Que hoje possamos estar mais atentos as pequenas coisas da nossa vida, são elas que fazem toda a diferença, com certeza.


Lindo dia.


Muitos bejios

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